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domingo, 9 de dezembro de 2012

A Igreja do Diabo

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A Igreja do Diabo
de Machado de Assis

CAPÍTULO I
DE UMA IDÉIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia
de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes,
sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem
organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer,
dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada
regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de
combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário
contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas,
bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo
universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as
outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei
diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de
negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto
magnífico e varonil. Em seguida, lembrou -se de ir ter com Deus para comunicar-lhe
a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos.
Acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:
— Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou
todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

CAPÍTULO II
ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que
engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou -se estar à
entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo,
mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro
esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e
alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios
de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco.
Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do
preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar
uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e
adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto,
com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos
parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas  oamor-próprio gosta de ouvir o
aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre
vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra
fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há
tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no
espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer cousa que, nesse
breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o
riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é
que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo
manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá -las
por essa franja, e trazê -las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda
pura...
— Velho retórico! murmurou o Senhor.
— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do
mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os
lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção
entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos,
— com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente
espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias
necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miúdas;
não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões,
carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios
mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel
fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espí rito da tua
espécie, replicou -lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos
moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para
renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas
legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo
ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de umavida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que
se debatiam já com a morte; deu -lhes a tábua de salvação e mergulhou na
eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de
algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida
aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e subtil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama
todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai!
vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe
silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus
cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como
um raio, caiu na terra.

CAPÍTULO III
A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu -se pressa em enfiar a
cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova
e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia
aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais
íntimos.
Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os
homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas
beatas.
— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos
soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da
natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens.
Vede-me gen til a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele
nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos
darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os
indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si.
E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A
doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à
substância, porque, acerca da forma, era umas vezes subtil, outras cínica  e
deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que
eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e
assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia,
com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a
melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a
Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula,
que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope;
virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas
ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões
de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude,
quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em
grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o
Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do
Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das
mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude
principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir
todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes
golpes de eloqüência, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção delas,
fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude.
Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía:
muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem
canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a
todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e
profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era
um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito
superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o
teu chapéu, cousas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo
caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua
palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua própria
consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois
não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte
do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sa ngue e os cabelos,
partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do
homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as
vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do
preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que
era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer
duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que
combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não
proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição,
ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma
expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum
salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito
foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro
social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma
exceção foi logo eliminada. pela consideração de que o interesse, convertendo o
respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à
nova instituição. Ele mostrou que essa regra era urna simples invenção de parasitas
e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em
alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que  a
noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele
fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve
a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao
próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie
de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do
indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação,
por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um
apólogo:
— Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas
cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece
aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

CAPÍTULO IV
FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de vel udo
acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às
urtigas e vinham alistar -se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o
tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava -se; não
havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse,
uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia. porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis,
às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem
integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões
recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias
de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal
povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os
fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o
mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu -se a conhecer mais diretamente o
mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de
um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com
o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito
ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à
entrada de uma, lançou -lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia a li
roubar o camelo de um drogman; roubou -o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo
de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita
muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou
completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calavrês, varão de
cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na
campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava
a meter-se na cama para não  confessar que estava são. Pois esse homem, não só
não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a
amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela
solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas,
benzia-se duas vezes, ao ajoelhar -se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer
tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu te mpo de refletir, comparar
e concluir do espetáculo presente alguma cousa análoga ao passado. Voou de novo
ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular
fenômeno. Deus ouviu -o com infinita complacência; não o interrompeu, não o
repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e
disse:
— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas
de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão.
— Que queres tu? É a eterna contradição humana.
FIM
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